Hotel
HOTEL
O carro havia parado em frente ao hotel, e eu e minha mãe caminhávamos por entre as árvores e plantas que decoravam a entrada. Uma gama de árvores de caule fragoso que pareciam falésias de súber fornecia abrigo do sol de quase meio-dia. Muitas rosas e flores de diversas cores estavam arranjadas em círculos e dispostas ao lado, nas pequenas elevações do terreno, como guirlandas. Entramos no hotel e fomos recepcionados por sorrisos largos de moças de cabelo loiro e olhos claros e um carregador de cara suada e boné preto, que se ofereceu para pegar nossas malas.
As recepcionistas, bem como outras funcionárias que se portavam de pé, perto dos elevadores sorriam continuamente. Não tinham interrompido seu sorriso desde que passamos pela porta de entrada. A persistência daquele sorriso me fazia pensar se não seria possível que estivessem sorrindo daquele jeito mesmo antes de entrarmos.
Terminávamos de assinar os papéis quando meu pai entrou pela porta principal. O sorriso das funcionárias, que antes era tão grande a ponto de ser possível ver quase todos os seus dentes, agora era um sorrisinho. Mal percebia-se sua existência, e talvez ele nem existisse mais, e o que julgávamos ser um sorriso era na verdade apenas uma discreta curva facial daqueles lábios juvenis.
Fomos levados até o elevador por uma das funcionárias que até então permanecera plantada como uma estátua, e entramos na cabine. As funcionárias do hotel, -com exceção das recepcionistas- usavam shorts beges e um boné marrom, com o cabelo atravessando a parte de trás em rabo de cavalo, pareciam escoteiras. O uniforme deixava à mostra suas coxas, um tanto imaturas, como os de uma irmã mais nova.
Saímos do elevador no 1ºandar, e dei de cara com um estreito corredor onde mal cabiam duas pessoas, um chão esquisito, feito de blocos retangulares de madeira e percebi Bastos passando por um corredor do outro lado do andar, trocamos um rápido olhar e ele desceu pelas escadas. Fui descoberto. Havia viajado centenas de quilômetros fora de casa e justo fora de casa encontrei quem em casa nunca encontrara. E nem gostaria. Me lembro de uma vez em que encontrei o novo vizinho, um homem pardo de cabelos lisos, bastante compridos - mentalmente eu o apelidara de Rapunzel - nas ruas de Nova Iorque. Conseguíamos evitá-lo todos os dias apesar de vivermos ao seu lado, mas bastou uma viagem para encontrá-lo onde menos se espera.
Quando me dei conta, minha mãe chamava da porta aberta do 105, onde meus avós estariam esperando. Dentro do apartamento estavam meus avós e mais outros dois velhos. Minha avó parecia decepcionada, olhava fixamente em direção à parede, seu rosto caído não despontava uma só feição de resposta às palavras dos presentes. Ou talvez fosse senilidade. O velho do outro casal - não sei quem era e nunca tinha o visto antes - estava bastante animado, bradava palavras de elogio ao hotel. Após combinar os planos da tarde minha mãe me disse para descer e ver o restante do hotel com o velho. Aqueles velhos em camisas justas com a barriga peluda pulando para fora me causavam nojo. Não aguentava mais ficar ali com aqueles velhos gordos então disse que ia embora para ver o resto do hotel imediatamente. Arrependia-me profundamente de ter cedido às súplicas de minha mãe e vindo até aqui.
No caminho de volta até o elevador tive tempo de observar a decoração do hotel com mais atenção. O chão de retângulos arredondados se destacava com suas bordas de plástico preto, enquanto que as paredes de madeira pareciam ir até além do corredor. De fato, enquanto observava tudo isso bati de cara com uma parede de vidro que dava para um corredor perpendicular que ligava este corredor com o corredor oposto. Mas essa porta estava fechada e não parecia haver fechadura. Voltei-me para o elevador e o velho que me aguardava e adentramos.
O velho balançava o corpo para os lados, como que dançando uma música silenciosa. Talvez estivesse alcoolizado. Ao menos sua camisa cobria sua barriga. Quando a porta se abriu e avançamos sobre o lustroso piso de azulejo do Hall, olhei para a minha esquerda e vi o mar, o oceano, e cadeiras de praia banhadas pelo sol; ao tempo que outros hóspedes ali presentes banhavam-se em uma grande piscina ou conversavam e bebiam coquetéis perto do bar. Pensei em ver a piscina, e olhei para trás para ver onde estava o velho; ele andava pela recepção, lançando sorrisos às escoteiras e puxando conversa com elas. Deixei ele e fui para a área da piscina. Andava ao redor da grande piscina procurando uma cadeira vazia e com um pouco de sombra, quando vi uma bela jovem andando de sunga e sutiã. Ela usava óculos escuros, mas mesmo assim eu podia ter certeza. Era Giulia. Mesmo que não pudesse ver seus olhos, o restante de sua face e seu corpo não mentiam. Ali estava a garota pela qual quase confessei meus sentimentos quando jovem. Olhando para ela, não parecia ter envelhecido; estava tão bonita como da última vez que a vi. Sentia o sangue correr forte e pensei na situação. Deveria falar com ela.
Eis então que ouço alguém chamar por mim. Era a vez de Anselmo, que me avistara e acenava para mim. Senti o sangue fervendo quente. Marchei pesados passos à contra-gosto em sua direção, perdendo Giulia de vista. Parei em frente à cadeira na qual estava deitado. Levantou-se, sem camisa, o débil peitoral à mostra. Queria saber onde estive, o que fazia atualmente e porque não tinha mantido contato com meus colegas. Disse que tinha tentado entrar em contato comigo.
Coisas, eu disse. Coisas.
Olhei ao redor. Essa era a última cadeira da fileira, havia uma mulher morena cor-de-sol deitada de costas à direita, mas depois dela a próxima cadeira estava vazia. Fui até ela e me sentei. Fiquei olhando o chão de pedra que assava ao sol. Anselmo agora estava na frente de morena, de pé, me observando. Ficamos assim por um tempo. Me virei e tornei a observar a piscina e bar. Percebi uma certa aglomeração se formando em um dos cantos perto da cerca, mas haviam tantos corpos de pé, os de trás espichando para olhar sobre os da frente, que não pude saber do que se tratava. Olhei para o bar. De seu interior vi saírem ao mesmo tempo Giulia e o velho. Giulia andava devagar, com cuidado, segurava um drinque cheio com as mãos e sugava seu conteúdo por um canudo. Seus delicados pés pisando na rocha quente e o líquido do copo balançando para lá e para cá com o movimento. O velho saiu rápido como um garoto. Ergueu a mão com uma latinha bem alto e chamou minha atenção. Gritou algo e apontou para a multidão que se formava. Peguei minha deixa e fui ao encontro do velho. Com sua corpulenta mão em meu ombro, puxou-me para perto, e com a mesma mão foi abrindo espaço facilmente entre a multidão, como uma faca quente cortando um pedaço de manteiga. Na parte de dentro desse denso semi-círculo humano estava uma mulher de uns 40 anos, vestindo um macacão laranja bem chamativo.
Chegamos no meio da conversa. Falava sobre uma brincadeira. Que iria começar uma brincadeira.
Que brincadeira? Não tenho interesse nisso - disse o velho, e começou a andar de costas, desaparecendo na multidão; a última coisa que vi foi a latinha em sua mão, antes de sumir por completo. Tentei segui-lo, mas a multidão agora era uma sólida muralha e por mais que tentasse aqui e ali não encontrava nenhuma brecha. Senti uma mão pegando com força meu antebraço e uma voz feminina anunciar: "Vai começar a brincadeira." Queria me desvencilhar mas sua mão era forte, e tinha me agarrado de jeito. Eu estava sendo levado ao lado da moça que liderava um grupo de umas trinta pessoas, aproximadamente metade da multidão.
Deixávamos a área da piscina e avançávamos por cima duma cerca, caminhando sobre uma área gramada, repletas de pequenas inclinações, que elevavam-se como serras em miniatura. Ouvi do grupo atrás de mim que isso tudo se tratava de território do hotel, até onde os olhos conseguiam ver. Que o hotel tinha comprado muito espaço ao redor e que planejava expandir, aqui onde estávamos pisando iriam construir um campo de golfe. Uma área de chalés privativos já estava pronta. Chegamos em frente a uma casinha escondida bem no meio de 4 morros de grama. A animadora parou na frente da porta e falou em um tom bastante amigável que deveríamos formar uma fila antes de entrarmos, de acordo com o tamanho. Soltou o meu braço. Ela começou a pegar pessoas pelo pulso, e dispô-las aqui e acolá, e pouco a pouco ia se formando duas filas. Uma dos pequenos e outra dos crescidos. Fiquei na fila dos crescidos. À minha esquerda uma vitrine de rostos impacientes, em sua maioria velhos, corcundas, cabisbaixos, reviravam-se impacientemente. Haviam alguns jovens aqui ali, e eram esses jovens que eu observava quando avistei Bastos. Bastos, meu melhor amigo da época de garoto. Ele parecia triste, olhou para mim atentamente, depois baixou a cabeça e não levantou novamente.
"Vai começar a brincadeira". De novo isso. Duas portas abriam-se diante de nós e pessoas das duas fileiras avançavam freneticamente desconsiderando qualquer noção de vez ou ordem. Os velhos e jovens corriam a todo vapor, tentando entrar na casa um antes do outro; chegavam na entrada e, vendo que nesta cabia somente uma pessoa por vez, jogavam-se contra os outros, tentando se espremer ou talvez derrubar seus adversários. Sentido uma força por detrás de mim, empurrando-me em direção à porta recém aberta, cedi aos fura-filas, disparando na maior velocidade também, e atirando-me em direção à porta. Entrei rapidamente e olhei em volta.
Lá dentro, as paredes coloridas. Cinco ou seis, cada uma de uma cor, o chão de pedaços de tapete de EVA que se interligavam como peças de um quebra-cabeça, igualmente coloridos. De pé sobre o macio tapete, estava a contemplar o espetáculo de cores e recuperar o fôlego, quando me dei conta de que o frenesi não havia terminado; todos os presentes corriam para sentar-se em pequenas cadeiras, com a mesma voracidade e competitividade de antes. Eram cadeiras bem pequenas, tão baixas que era quase como sentar-se no chão. Todas cadeiras tinham 4 pezinhos e um encosto com o formato de algum animal e estavam dispostas espaçadamente como em um anfiteatro, centrado na figura da animadora. Olhei em volta o mais rápido que pude, e logo avistei uma cadeira vaga mais à frente. Era uma girafa. Uma girafa com seu longo pescoço e 4 patinhas. Sentei nela e esperei, enquanto os que vinham chegando pegavam as cadeiras que iam sobrando. Logo a sala estava cheia. A animadora silenciou os arrastos de cadeiras com seu anúncio.
"Façam um par, que a brincadeira vai começar!". Olhei em volta daquele mar de estranhos, Bastos estava sentado num canto da primeira fileira, perto da parede, bem longe de onde eu estava. Arrastei um pouco a cadeira para trás, como que me afastando de Bastos. Não queria outro constrangedor reencontro. Pensei em cutucar alguém na minha frente e perguntar se tinham feito par, quando senti puxarem a manga da minha camisa por detrás, e dei de cara com Anselmo, ainda segurando minha manga, e falando amigavelmente. Levantou-se, e foi avançando com a cadeira, tentando arranjar um lugar para si na fileira. Meus vizinhos -dois grandes e corpulentos carecas impassíveis- não se moviam, então fui justamente eu que tive de me mover para o lado, abrindo espaço. Anselmo estava sentado em um elefante. Devido à irregularidade cometida, nossas cadeiras ficaram bem próximas uma da outra, e um pouco inclinadas e um pouco retraídas, destoando de toda a fileira. Olhei para meus vizinhos, na esperança de um protesto; nada. Permaneciam imóveis, com o inexpressivo olhar fixado à frente. Então, apelei para minha última esperança, a animadora. Minhas pupilas deslizaram da direita para a esquerda, do vizinho indiferente para a figura da animadora, e procurei os seus olhos, mas para meu espanto eles já estavam cravados em mim. Não os suportei, e desviei meu olhar para sua boca, que esboçou um sorriso e disse:
"Vejo que já escolheram seus pares, vai começar a brincadeira!".
E ela começou a explicar a brincadeira. Começou falando que toda brincadeira é um toma-lá-dá-cá, e que tem que confiar no amigo com quem se está brincando. Falou muita coisa desse tipo, depois disse que era para cada um dar alguma coisa a seu par.
Chequei meus bolsos, estavam vazios. Ao meu redor, muitos pares se abraçavam. Trocavam abraços. Lembrei-me do meu relógio de pulso. Gostava muito dele. Tirei-o do pulso e o entreguei para Anselmo, dizendo - "Tome isso."
Numa tentativa de preencher o constrangedor silêncio comecei a falar sobre as variadas funções do relógio. Tinha muitas. Algumas eu ainda não tinha descobrido para que serviam. Anselmo afivelou o relógio em seu pulso e me deu um anel, que removeu de seu dedo anelar. Coloquei-o em meu dedo desejando que não coubesse, que ficasse frouxo. Mas chegando no fim coube bem.
Depois teve mais conversa sobre brincadeiras. Jogamos uns jogos, bebemos uns sucos, e nos despedimos da animadora e uns dos outros. Antes de deixarmos o chalé, a animadora disse que ia ter brincadeira. De noite. Brincadeira de fantasma. Vampiro. De monstro. Brincadeira de susto. Disse que havia um monstro no hotel, escondido, que era perigoso, e que era necessário procurar por ele junto com a animadora. Deviam ter muito cuidado.
Apressei-me a caminhar sorrateiramente em direção à porta, aproveitando a oportunidade para desvencilhar-me de Anselmo e sair despercebido. No caminho de volta passei pela piscina, já estava escurecendo e não havia quase ninguém. Apenas um ou outro casal de namorados, terminando seus coquetéis e trocando beijos. Voltei para o hall de entrada.
...
Já havia terminado de jantar quando decidi ir para cama. Não havia muito o que fazer. Escondia-me atrás de pilastras, observando atentamente todo o saguão antes de prosseguir. Não podia arriscar ser encontrado agora. Tinha conseguido evadir a todos desde minha saída do chalé. Já me sentia confortável atravessando salões sorrateiramente, e usando de atalhos secretos em todo lugar. O hotel estava cheio deles. Caminhos ignorados, mal-iluminados, escondidos pela vegetação, por canteiros, por placas de "somente funcionários", que levavam da cafeteria até a piscina, do bar até a recepção... Ainda era cedo. Decidi dar uma olhada na brincadeira. Na animadora. Queria olhá-los de longe, sabendo que essa noite não poderiam me pegar. Nunca me encontrariam. Por detrás de um canteiro via suas silhuetas. Uma figura escura permanecia em pé, seus escuros braços gesticulando para a platéia que assistia sentada. Era a animadora. Esse jogo de sombras se passava em um quiosque de tijolos no meio do gramado. A luz do luar incidia sobre seu telhado dando um ar bastante romântico à cena. Um funcionário que passava por ali acendeu e apagou sua lanterna algumas vezes, provocando espanto nos participantes que já estavam apavorados com a ideia do monstro mesmo antes da brincadeira começar. Aproveitei e mudei de posição, trocando o espinhoso canteiro por um carrinho de golfe deixado ao relento. Era um bom lugar.
As sombras permaneciam sentadas no quiosque.
Decidi que iria embora, a brincadeira fora observada e já não havia mais nada que me interessasse. Deixei a área e voltei para o hotel.
Despenquei nas almofadas de couro do sofá da recepção. De lá podia ver os hóspedes descendo das escadas e do elevador, em direção ao refeitório. O suor deslizava pela minha pele indo de encontro às almofadas; o ar gelado dos ar-condicionados chocava-se com a pele úmida gerando uma sensação refrescante como menta. Iria dar uma olhada no restaurante do bar, tomar algo bem gelado e esperar o sono chegar. Estava a me levantar quando avistei Giulia, vindo da direção do refeitório. Talvez já tivesse jantando, ou talvez tinha apenas dado uma olhada e resolvera comer em outro lugar. Parou em frente às escadas e se despediu de sua amiga, caminhando em direção... ao quiosque! Giulia participaria da brincadeira! Não consegui acreditar, mas não havia outra explicação, por ali só havia a porta de saída, que dava para o gramado escuro, o mar noturno e o quiosque. Além disso, tinha um sorriso meio inocente, meio travesso, um sorriso de adolescente, quando se despedira da amiga. Isso e seu par de jeans deixavam bastante claro para onde estava indo. Refresquei-me o máximo que pude diante do ar-condicionado e comecei a segui-la.
Via, agachado, como ela andava elegantemente pelo gramado, sua pele rosa desaparecendo no escuro da noite, sua silhueta parando na frente do quiosque e a mímica que se sucedeu, onde claramente cumprimentava a animadora e os outros, anunciando sua intenção de juntar-se a eles, que era recebida com entusiasmo pela figura saltitante da animadora. Era chegada a hora da perseguição.
Mantinha uma distância bastante segura do grupo, sempre atentando-me para os escassos pontos de luz, para o prédio principal do hotel. E conforme nossa jornada de procura pelo fantasma nos afastava cada vez mais, esses pontos de referência iam perdendo sua imponência, desaparecendo pouco a pouco dentre o gramado escuro. As lamparinas logo se tornavam a direção das lamparinas, o hotel - agora invisível - tornava-se a direção do hotel. As únicas referências em que podia confiar eram a lua e o farfalhar das ondas. Devia ter trazido uma lanterna. Certamente a animadora e seu grupo possuíam várias lanternas. Conforme andava através de canteiros, jardins e muretas, sentia em minha mente uma estranha sensação. Um deja vu. Tinha a forte impressão de já ter estado em uma situação exatamente como esta. Caçando fantasmas sozinho em um hotel à noite. Ou melhor, caçando pessoas que estavam caçando fantasmas sozinho em um hotel à noite. Pesando bem esse hotel era enorme, grande demais para um hotel. Era um resort. Um grand resort, ou algo do tipo. Mas faltava a elegância. Dei-me conta da possibilidade de encontrar com o monstro antes da trupe. Se eu descobrisse o monstro antes de todos, sozinho e sem lanternas, certamente seria um feito em tanto. Senti o sangue correr frio. Havia também a possibilidade do monstro me pegar antes. Ele podia estar me caçando bem como eu estava caçando a trupe. Esse monstro, esse assassino, esse fantasma podia estar me observando agora mesmo. Olhei ao meu redor, procurando por qualquer sinal de movimento. Não encontrei nada. Foi nesse momento que percebi haver perdido a trupe de vista. Devia tê-los perdido de vista a um bom tempo, confundindo suas silhuetas com as de um grupo de plantas espinhosas balançando ao vento. Não fazia a menor ideia de onde estava. Engoli seco. Tinha que pensar em alguma coisa.[] No breu noturno, todas as sombras eram iguais. Igualmente irreconhecíveis. Sua própria escuridão misturava-se com o negrume da noite, unindo-se em uma figura só. Os olhos não eram capazes de discernir nada, tornavam-se inúteis nas circunstâncias. A mente, em desespero, ofegante, tentava ao máximo encontrar uma solução, e nessa esperança moribunda precipitava-se; o consciente dominando o subconsciente e forçando suas expectativas sobre ele. Todo vulto disforme carregava em seu ventre sombrio a possibilidade de salvação, por isso, quando via uma figura naquelas trevas forçava-me a compará-la com alguma lembrança do hotel, abandonando todas as diferenças em prol de uma única semelhança. Nesses momentos o medo desaparecia momentaneamente dando lugar à inabalável fé dos desesperados. Mas logo essa fé era traída pelas cegas apalpadas, e a escuridão reinava novamente.
Lembrei-me dos tempos de criança. De quando me perdera como dessa vez. Tinha não mais que nove anos, e passara a tarde toda brincando com as crianças do clube do hotel. Brincava na piscina, enchia a barriga de batatas fritas, e divertia-me com os garotos do clube. Quando chegara a noite, a animadora do clube anunciou que iria começar uma brincadeira de susto. As crianças estavam excitadas, cochichando entre si. Eu me espremia contra um corrimão na parede. Na última viagem que fizera, há apenas alguns meses, tinha participado de uma dessas brincadeiras. As crianças ficavam em uma escura sala, iluminada somente por alguns fracos feixes de luz que transpassavam um minúsculo quebra-luz; e uma música sinistra tocava ao fundo. De repente a luz era apagada e o monstro entrava na sala, agarrando as crianças que soltavam berros de terror. Eu corria em círculos o mais rápido que podia, fazendo-me difícil de se agarrar, sem poder enxergar nada naquele breu, e consistentemente batia-me de frente com alguma outra criança desesperada que usava da mesma tática. Alguns minutos depois acendia-se a luz da sala que reluzia como um sol, a música dava uma pausa, e naquele clarão via-se as outras crianças da sala, em silêncio, provavelmente perguntando-se se as crianças capturadas há pouco ainda estavam na sala, ou haviam sido levadas pelo monstro para algum outro lugar. Esse ciclo se repetiu algumas vezes, antes da brincadeira acabar.
Na época, tive a impressão de que a brincadeira porvir seria ainda mais sinistra do que essa, e embora tivesse uma certa confiança advinda da minha sobrevivência, havia outra parte de mim que se contentava com a singela segurança presente. As crianças do clube quase todas declararam sua vontade de participar, mas haviam outras que diziam já terem avistado um vulto suspeito no hotel e, disfarçando o medo com um tom de pragmatismo davam a entender que seria melhor se abster dessa brincadeira. Na minha indecisão costumeira adiei uma resposta definitiva o máximo que pude e, chegada a hora da brincadeira ainda não havia me decidido ao certo do que faria. A animadora andava pelo refeitório, lembrando as crianças que terminavam seus jantares da iminência da brincadeira, tocando-lhes os braços e lançando-lhes sorrisos. Mas toda essa amabilidade não dissipava a macabra atmosfera que imperava na noite. Assisti de longe o grupo participante se reunir, e com arrepios na pele decidi me abster. Não queria me encontrar novamente em uma situação daquelas, vulnerável e amedrontado apenas pelo bel-prazer das animadoras. Então iria para o quarto onde estavam meus pais, diria alguma mentira sobre não haver brincadeira e assistiria TV. Mas aí também senti um desgosto. Nessa atividade não me agradava nada. Seria tão ruim assim dar uma chance a essa brincadeira? Possivelmente, talvez, nunca se sabe com esses monstros. Enquanto estava imerso em minhas dúvidas a trupe com as animadoras zarpou na calada da noite, em busca da criatura maligna que se escondia em algum lugar do hotel. Foi então que tive uma ideia, fiz de minha indecisão uma decisão. Ora, se não queria voltar para o quarto não precisava, e se tinha receio de juntar-me à trupe na caçada noturna também não tinha que fazê-lo. Iria eu mesmo sair em minha aventura, sem juramento à animadora ou ninguém, podendo abandonar eu mesmo a perseguição como bem entendesse. Essa realização animou meu espírito, e vi-me em uma emocionante aventura. Avançava pelo cenário noturno sentindo-me como os aventureiros de outrora. Os bandeirantes, os pioneiros americanos, os heróis dos filmes estrangeiros... Tinha aqui comigo uma genuína aventura, desprovida de situação ou oportunidade, livre dos desígnios de outrem, apenas um pulsante e glorioso sentimento rasgando o sombrio silêncio da complacência. Ao menos era isso que dizia ao mim mesmo enquanto caminhava. Minha mente podia muito bem estar inebriada com essas formosas imagens, mas meu coração tremia a cada passo, ansiando um inoportuno encontro com a criatura.
E me perdi. Simplesmente me perdi. Nunca saberei que segredos ocultava o monstro do hotel, nem o que presenciaram os garotos naquela noite, mas o que presenciei foi algo igualmente assustador. A sensação de perder-se completamente. De ver-se engolfado na mais sombria escuridão. Essas trevas não diferiam daquelas na sala do monstro. Eram igualmente opacas. No entanto, aqui não haviam intervalos nem animadora. Não haveria nenhuma pausa na escuridão, nenhum momento temporário de luz. Não haveriam animadoras que pudessem me socorrer se precisasse. Nem mesmo haveriam outras pobres crianças com quem pudesse dividir meu sofrimento. Somente eu e a noite em sua plenitude, selvagem e sem filtros. Permaneci parado em pé por um tempo. A intrépida coragem de antes dissolvera-se em culpa. Esperei algum milagre. Alguém que viesse me salvar. Ninguém apareceu. Nesse momento desejei que o monstro me pegasse. Ao menos estaria livre de meu tormento. Ficar parado não surtiu solução, apenas aumentou minha ansiedade. Pus-me a andar. O exercício das pernas me livrava do peso do pensar. Conforme caminhava, ia gritando: "Socorro!","Alguém aí?","Me perdi". Já não esperava mais nenhuma resposta, o fazia mais como uma distração para manter-me calmo do que como medida de sobrevivência. No silêncio que intermeava meus gritos de socorro pensei ouvir algum barulho, e fui investigar. Segui os fracos sussurros e encontrei um funcionário, que empunhava uma lanterna e guiava um casal, contando-lhes sobre as futuras instalações. Parei bem na frente deles, e fiquei a contemplar o contorno de seus corpos. Queria certificar-me de que eram reais. Quando finalmente pedi direções, o funcionário pareceu assustado, dando a entender que estávamos muito distantes do prédio principal. Me deu uma série de direções por meio das quais chegaria a um lugar descampado de onde poderia avistar as luzes de entrada do hotel, e a partir daí era só seguir em frente.
Minhas chances agora jaziam na presença de um funcionário caminhando em algum lugar remoto e escuro desse imenso complexo hoteleiro. Não obstante, a cada segundo que se passava as possibilidades de um funcionário estar ainda acordado realizando alguma tarefa no final de seu expediente diminuíam drasticamente. Pensei que talvez tivesse que passar a noite em claro no relento. A esta hora da noite, não só mosquitos como todos os tipos de répteis, anfíbios e artrópodes nojentos saíam de suas tocas e festejavam na ausência de seres humanos. Não tinha sequer um relógio para medir o tempo. Estava fora de cogitação.
Refazer os passos de anos atrás. Era minha única opção. Esse último recurso daqueles que não conseguem mais pensar em nada, e se agarram às narrativas do passado, como que esperando uma repetição. Funcionou muitos anos atrás, afinal de contas. Tornando a caminhar, estava a ponto de gritar "Socorro!" quando suspendi a ideia. Um rapaz crescido gritando socorro em um hotel? Que visão mais embaraçosa. Ridícula até. Soltei um fraco "Ei, você aí!" para a escuridão esperando uma resposta. Pensei ser menos vergonhoso do que um "Socorro!", mas assim que o disse percebi o ridículo. Caminharia silenciosamente.
Caminhei por vários minutos, não sei quantos, até que comecei a escutar uns ruídos, mas antes mesmo que pudesse me animar percebi se tratar do farfalhar das ondas. Logo me deparei com oceano. O brilho da lua refletia sobre sua agitada superfície. Olhando daqui as marolas pareciam espelhos a reluzir. Ao menos o oceano serviria de alguma referência. Era facilmente reconhecível; o hotel não poderia estar muito longe, em algum lugar da costa estariam as cadeiras de praia e os guarda-sóis fechados. Decidi entrar no oceano. Dar um mergulho. Estava suado devido à longa caminhada, e mais importante, se adentrasse mais ao fundo teria um melhor campo de visão. De alguns metros de distância poderia contemplar toda a costa e qualquer fonte de luz logo se faria visível. A água fria gelava minhas canelas. Avançava lentamente pelo assoalho oceânico. A água agora estava na altura dos ombros. Minha folgada camiseta se inflara e parecia uma água-viva. Livrei-me dela. Já não pisava mais. Avançava empurrando a água para trás de mim. Virei-me e olhei a costa. A única fonte de luz visível era a Lua pairando agourenta no céu. A costa nada mais era do que uma grande tira escura. Tive uma forte impressão de silêncio. Um fúnebre silêncio. Uma pequena onda passando ao meu lado veio e me acertou no rosto, como um tapa, fazendo arder meus olhos e amargando minha língua. O mar se agitava ainda mais. Em algum lugar havia uma luz, uma luz cintilante. Isso eu sentia. Eu sabia. Com ânimo recobrado tornei a nadar. Enquanto antes eu nadava com a cabeça erguida, fora d'água, agora nadava totalmente imerso no oceano. Não havia necessidade de nadar em linha reta ou qualquer outra coisa, apenas de me distanciar o máximo possível da costa. Também enquanto o fazia, não podia abrir olhos, a não ser quando levantava para respirar. Mas aí também não havia por que fazê-lo. A paisagem das nuvens no luar sobre o oceano cinza permaneceria inalterada, incólume. Não havia o que olhar. Guardava minha visão para quando me voltava em direção à costa, ansiando ver o brilho das lâmpadas. Geralmente a cada quatro respiradas. Quando o fazia, era sempre a escuridão quem dava as caras. A escuridão e um aperto no coração. O sal do mar. Maresia impregnante.
A situação se agravara. Horas se passaram, a noite esfriara, eu já estava cansado e o mar agitava-se violentamente. Parecia estar com raiva de mim, querendo me expulsar de seu domínio. Ou talvez estivesse de acordo com meu coração. Ambos contorcendo-se de desespero. Decidi dar um último arranco. Nadaria o máximo que pudesse, sem guardar energias, pararia apenas quando não tivesse mais como prosseguir. Dessa vez não olharia para trás. Assim sendo, comecei a nadar. Meus braços abocanhavam as águas do mar, famintos - assim como meu estômago - inebriados pelo próprio torpor. Quando enfim havia chegado bem longe, respirei fundo e me virei, encarando a costa uma última vez. Não estava mais desesperado, gastara minhas forças todas no nado, e chegada a fatiga não havia mais lugar para esperança ou ansiedade. Havia até uma certa serenidade em mim. Uma serenidade advinda do cansaço por exerção.
Nada de luz. Gritei. Puxei os cabelos. Soquei a água. Nesse breve acesso de raiva avistei algo no lado oposto à costa. Bem ao fundo no mar havia uma massa negra que vertia sobre as ondas e elevava-se até o céu. Do seu topo emanava uma luz. Uma radiante luz. Era algum farol construído sobre um rochedo. Tinha ouvido falar sobre um farol nas redondezas. Fui curado por sua luz. Meu cansaço desapareceu. Tudo desapareceu, somente restava aquela luz. Enquanto nadava em sua direção, a via até de olhos fechados embaixo d'água. Conforme me aproximava seu candor se intensificava. Sentia vibrações, vibrações no mar. Como se o mar estivesse tremendo. Ergui a cabeça para respirar e ouvi um barulho. Um barulho ensurdecedor, vindo dessa luz. As vibrações aumentaram e com elas o barulho. Estava perto da luz, quando chegou a um ponto em que não podia mais nadar. A água antes gélida agora estava quente e vibrava como uma hidromassagem. O barulho era insuportável e precisei tampar meus ouvidos. A luz ofuscante reluzia bem nos meus olhos e me cegava. Desviei os olhos me afastei um pouco. Observei novamente. Era um navio. Um imenso, colossal navio. Seu estrondoso ruído me incapacitando, o calor de seu motor fervendo a água em sua volta. A fulgurante luz que impossibilitava a visão. E mais importante seu corpo blindado pesando toneladas, rasgando o oceano e avançando em minha direção. Corri, nadei fugi. Pus-me a nadar como um louco, fazendo o caminho de volta. Não olhava para trás, nem erguia a cabeça para respirar. Apenas nadava, braçada após braçada, tentando sair de perto daquela besta o mais rápido possível. Quando acabou o fôlego, ergui a cabeça, e já não ouvia mais a embarcação.
O mar havia se acalmado, perdia-se qualquer esperança.
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